Viagem: Amsterdam – Parte 2
Escrito por mgglopes em October 2nd, 2008
Continuacao do post Amsterdam – Parte 1. Veja abaixo as fotos das fervecoes da noite e dos museus da cidade.
Red Light District:
É o bairro boêmio da cidade. Na verdade esse é um nome bonito, porque no fundo é um bairro feio, sujo (pelo menos mais que o resto da cidade), com vielas escuras e cheio de povo estranho com roupas esquisitas. Ali o comércio de droga (legal de maconha nos coffes e ilegal de cocaína nas ruas) junta-se à prostituicao (também legalizada, em locais e casas específicas) e às casas com temática pornô (shows ao vivo e cinema) para formar talvez o maior centro de “drogas, sexo e rock & roll” do ocidente (a China sempre tem o maior do mundo, em qualquer coisa).
Pelo menos nao é muito perigoso, apesar da cara. As cameras estao por todos os lados, principalmente nas ruelas escuras. Policiais também passam frequentemente pelas ruas. Fazem vista grossa para os indivíduos que oferecem (nao tao) discretamente cocaina nas ruas, mas pelo menos marcam presenca policial por la.
As casas de prostituicao sao realmente diferentes. Legalizadas, possuem um luminoso vermelho na fachada para se identificarem como tal e, via de regra, vitrines com prostitutas que ficam ali se mostrando e chamando os potenciais clientes. Nao só a noite, mas muitas vitrines estao ocupadas em plena luz do dia. As prestadoras de servico (em suas ousadas lingeries) ficam nas vitrines defronte às calcadas, onde turistas a procura de sexo e famílias passeiam com suas criancas. Estranho nao?? Pior que nao. Ou sim? Complicado. Isso é Amsterdam.
Observacao 1: Nao ache que vai ver só beldades nas vitrines. Há muitas barangas e “mocinhas” fora do peso ideal. Mas como tem gosto pra tudo, elas estao la. Pior que isso: continuam la, sinal de que realmente nao faltam clientes para que elas possam pagar o aluguel da vitrine, às vezes cobrado como diária pelas casas. Se oferecerem seus servicos e voce, em plena luz do dia (e consciencia) recusar, nao estranhe ser chamado de viadinho ou ouvir um palavrao. Como eu sempre digo: bizarro!!!
Observacao 2: Sem preconceitos. Quando falo que há gente estranha e esquisita, significa que isso é diferente do meu dia-a-dia. Tanto que fiquei num albergue la, quase no meio da muvuca. E quer saber, como diria a Solange: o site é meu, a vida é minha, o “pobrema” é meu.
Pub Crawl:
Na cidade há um famoso Pub Crawl, que é um tour em grupo por vários bares e baladas. Ótimo para os turistas, pois é uma chance de ter um guia para levá-lo a opcoes legais da noite. Claro que nem sempre sao as melhores (acordos comerciais, patrocinio), mas vale muito a pena. Paga-se acho que 15 euros, mas com direito a drinks em todas as casas e algum tempo de cerveja (e shots diversos) grátis. Reune pessoal de praticamente todos os albergues e, claro, de todos os lugares do mundo. Se quer conhecer a noite local, reserve uma noite para o Crawl e outra para sair “por conta” em algum dos bares/baladas tradicionais, com menos turistas.
Vídeo Bônus: Como mal da para ouvir no video: "Bar Cinco!!!": Quinto bar do segundo dia (seguido) de pub crawl em Amsterdam. Nao estranhem, portanto, nossas caras de b̂êbados retardados cansados… Cortesia Sobral&Sobral Producoes Noturnas Multimídias. (Valeu Lucas!!!)
Museu Van Gogh:
Muito legal. Conta toda a história do pintor, com apresentacao cronológica de suas obras.
Vincent Van Gogh foi, em vida, o que se pode chamar de um verdadeiro fracassado (e deprimido). Reprovou nos exames para entrar na universidade, levou um “nunca” ao pedir sua amada em casamento, juntou-se com uma prostituta grávida e com filho, mas teve que a deixar por pressoes familiares, casou-se em seguida com uma vizinha, mas sua nova paixao tentou suicidio por reprovacao das familias à uniao dos dois.
Nao bastasse tudo isso, ainda foi sustentado praticamente a vida toda por Theo, seu irmao mais novo. Eram muito ligados, e foi Theo que o incentivou a se dedicar seriamente à arte, quando Vincent tinha cerca de 25 anos. Mesmo sendo hoje considerado um dos maiores artistas da história, Van Gogh só vendeu 1 quadro enquanto vivo. Sua vida de depressao o levou a cortar um pedaco de sua propria orelha, pedir para ser internado em uma clínica psiquiatrica e no final se suicidar com um tiro no peito.
Suas obras comecaram a fazer sucesso logo depois de sua morte, em 1890. No início do século XX ele já era reconhecido como um dos grandes nomes da arte. Atualmente 3 dos 10 mais caros quadros já vendidos em todos os tempos sao dele. Exato, daquele incompetente que só vendeu um quadro na vida!
Casa de Anne Frank:
Acho que foi o lugar mais interessante de Amsterdam. Para quem se interessa pela história do nazismo, holocausto e afins, é uma visita imperdível. Anne Frank foi uma menina judia que se escondeu com a família mas acabou capturada pelos nazista, morrendo em um campo de concentracao.
A família alema judia vivia em Frankfurt e, assim que a segunda guerra e as perseguicoes nazistas aos judeus comecaram, se mudaram para Amsterdam, em busca de seguranca. De 1933 a 1940, viveram em relativa tranquilidade, até a invasao da Holanda pelos alemaes.
A partir da ocupacao, os alemaes comecaram a implementar suas restricoes a vida dos judeus (como ja faziam na Alemanha e Polonia): tinham que usar uma identificacao no braco (uma estrela de davi), existiam escolas só para criancas judias, eles nao podiam andar de transporte público (as vezes nem nas calcadas), tiveram as carteiras de motoristas confiscadas, as lojas de judeus eram identificadas com placas que explicitamente recomendavam que nao-judeus ficassem longe (quando nao eram saqueadas), nao podiam frequentar bares, restaurantes e espacos publicos, as pracas tinham bancos so para judeus, entre outros absurdos.
Em meados de 1942, quando a perseguicao aos judeus aum
entou e as prisoes comecaram, a família Frank (pais e 2 filhas) e mais 4 pessoas judias, foram morar em um esconderijo chamado de “Anexo Secreto”, que ficava em um puxadinho de 3 apertados comodos na parte superior do escritorio de Otto, pai de Anne. A entrada era por trás de uma estante falsa. Alguns poucos amigos sabiam e levavam comida regularmente.
Como o prédio (inferior) era utilizado durante o dia por funcionários que nao sabiam de nada, nao podiam fazer barulho. Mal podiam conversar. Usar a descarga durante o dia, nem pensar. Cortinas, só uma minúscula fresta aberta. A vida de privacao durou 25 meses, que incluiram periodos de fome, quando os amigos estavam todos doentes.
Anne, entao com 13 anos, conta em detalhes toda a vida da família, como pensava, como viviam e o que comiam. Seus medos, vontades, preocupacoes e ate amor, que teve pelo garoto Peter, filho da família que estava tambem escondida com os Frank.
Essa vida durou até agosto de 1944, quando a polícia invadiu o anexo e prendeu os oito ocupantes. Ate hoje nao se sabe quem foi o responsável pela denúncia que levou os alemaes ao Anexo Secreto. Eles foram para uma prisao na regiao e no mes seguinte partiram para Auschwitz, na Polônia, no último trem que fez o trajeto. Logo no desembarque, mais da metade dos mil passageiros foi direto para a câmara de gas, incluindo todos os menores de 15 anos, que nao tinham utilidade para o trabalho forcado. Anne, com seus 15 anos e 3 meses, escapou.
Por 6 meses, trabalhou no campo e sofreu de várias doencas que facilmente se espalhavam entre os amontoados de prisioneiros fracos e debilitados. Em marco de 1945 Anne e sua irma morreram de tifo em uma epidemia que deixou 20.000 mortos só em Auschwitz. Apenas 3 semanas depois de sua morte, o campo e todos os sobreviventes foram libertados pelas tropas inglesas que avancavam sobre os alemaes.
Guardado por uma amiga da família, o diário foi entregue a Otto, pai de Anne e único sobrevivente do esconderijo. Otto editou e publicou “O Diário de Anne Frank” em 1947. O mais conhecido relato de uma família prisioneira do holocausto, o livro já vendeu mais de 40 milhoes de exemplares em 60 idiomas. No Brasil é encontrado facilmente nas livrarias, por cerca de 35 reais. Leitura um pouco pesada por ser um diário, nao uma narrativa contínua, mas de qualquer forma muito interessante. Eu já li o meu, comprado lá mesmo no museu, e em portugues (vendem lá quase todos os 60 idiomas!).
O museu Casa de Anne Frank pertence a uma fundacao de mesmo nome e fica no prédio do Anexo Secreto e vizinhancas, e a visita é feita também pelos cômodos onde a família viveu reclusa. Por desejo de seu pai, morto em 1980, a casa permanece sem nenhuma mobília da época, mas as maquetes e reproducoes apresentam muito bem a situacao em que sobreviviam.
Pois é isso. Amsterdam. Loucura.
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